segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Licita

Licita

Parecia-me impossível colocar pé ante pé, algo que é automático, nunca chegaria em casa se não conhecesse o caminho a 17 anos. Minha cabeça latejava, meu equilíbrio já quase não existia e apesar da total falta de noção do mundo eu ainda sentia a ardência na ponta dos dedos que sangravam, pela falta das unhas.

Até os 16 anos, todos são aparentemente normais, temos uma rotina certa. Com mais ou menos 4 anos começamos a freqüentar o colégio, e nem damos muita importância a isso, é super fácil levar tudo isso sem nenhum esforço. Na chegada da adolescência as coisas parecem se tornar mais difíceis, mas tudo não passa de um pequeno conflito interno, que poder ser facilmente resolvido com uma boa estrutura familiar.
Tudo começou a mudar quando completei 17 anos, no dia 18 de Maio, como moro no Brasil, para poder entrar em uma faculdade eu preciso prestar uma prova, chamada de vestibular, o que já é uma grande barreira, ainda mais para quem quer ingressar em uma faculdade pública. Pra mim o colégio já era uma barreira, pois desde a oitava série os professores me davam a impressão de que nós, alunos, não necessitaríamos de vida, coisa que eles têm o pleno direito, já que muitos apresentam os mesmos materiais há anos, sem nem colocar nem por uma vírgula a mais.
Talvez eu fosse uma exceção, mas desde esta época mais remota eu já refletia esta insignificância do aluno para o professor. Procurando atingir uma meta eu me tornei doente. Para muitos ficar doente é normal, mas para mim não era. Eu tentava fazer tudo o que os professores mandavam, como coisas inúteis, exemplo: procurar 100 palavras no dicionário, escrever seus significados no caderno, sendo que o tempo para resolução era de um dia. Mas tudo isso era em geral ignorado, e por muitos eu ainda era odiada por fazer e odiada mais ainda por não emprestar o meu esforço.
Nessa época difícil tudo foi embora, aquele “amigo” leal sumiu, os colegas desapareceram já os pais estão sempre ali, mas era um tanto difícil entender. A esse ponto a minha rotina se modificou, em vez de muitas aulas, entre elas existia a parte chamada vomito, e não era bulimia, era algo simplesmente sem explicação, só que as coisas foram piorando, dormia sempre, fui perdendo a cor da pele, tinha dores abdominais terríveis, a menstruação nunca parava.
Um ano se passou assim, além de meus pais poucos sabiam, fui tomada pelo desespero quando nem da cama eu conseguia levantar, assim fui parar em um hospital, poucas gotas de sangue foram possíveis, mas ainda assim o resultado foi claro: nada consta.
Dois anos se passaram e a coisa começou a melhorar, mas algo surgiu no meu horizonte, o infeliz do vestibular, ele poderia ser a minha maior derrota como a minha maior vitória, mas por enquanto era o meu maior inimigo. Com a infelicidade dos 17 anos eu morri.
Tudo foi conseqüência do desafeto daqueles que deveriam ser nossos grandes mestres imparciais. Quando a dificuldade começou a aumentar eu já estava a ponto da loucura, o caminho foi procurar uma psiquiatra. Remédios vinham e iam com uma facilidade tremenda, porém minhas aulas atrapalharam neste processo, e algo que eu não conhecia começou a acontecer, a dependência de algo que para muitos ainda é licito, e é uma droga sim.
Parecia-me impossível colocar pé ante pé, algo que é automático, nunca chegaria em casa se não conhecesse o caminho a 17 anos. Minha cabeça latejava, meu equilíbrio já quase não existia e apesar da total falta de noção do mundo eu ainda sentia a ardência na ponta dos dedos que sangravam, pela falta das unhas.
O que era para ser fácil se tornou um pesadelo, nada fazia sentido, até que algo me entender, que ser parte deste sistema não valia à pena, ser apenas mais um robô daqueles que nos ignoram era burrice. Foi ai que conheci o poder do ser humano, a força de vontade encontrada no suicídio, fácil e um pouco demorado, mas morrer enforcada nem foi tão difícil, a dor foi momentânea, mas logo a leveza foi tremenda e a felicidade tomou conta do meu corpo, ou melhor, da minha alma, para onde fui não posso contar, esses mistérios só serão descobertos na sua hora.
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Isto é uma obra de ficção, possiveis opniões não são compartilhadas pela escritora, espero que gostem ;D